Divergências entre Flamengo e Filipe Luís
O ano de 2025 se aproxima do fim e a possibilidade de não renovação do contrato de Filipe Luís com o Flamengo torna-se cada vez mais plausível. À medida que se aproxima a data limite para o término do contrato, surgem na imprensa notícias sobre divergências significativas entre o clube e o treinador, especialmente em relação aos termos do novo vínculo.
Análise da Negociação
Quando se trata de uma negociação que envolve salários, projetos e o futuro de uma carreira, é fundamental que a análise vá além da emoção e da paixão clubística. Observando a situação de maneira racional, é possível concluir que Filipe Luís tem motivos para apresentar exigências, enquanto o Flamengo tem suas razões para recusá-las.
Salários e Expectativas
Contexto da Contratação
Filipe Luís foi contratado como técnico do Flamengo ainda na gestão de Rodolfo Landim, em um cenário que não pode ser desconsiderado: ele era uma aposta de alto risco. O treinador chegou ao cargo sem nenhuma experiência anterior, sendo amparado principalmente pela sua história no clube e pela identificação que possui com a torcida, além do breve período em que trabalhou com os Garotos do Ninho, a equipe sub-20 do Flamengo.
Dentro desse contexto, era compreensível que seu salário fosse inicial e relativamente baixo. Embora não tenha sido o menor da Série A, como foi amplamente noticiado, certamente estava aquém dos valores que são pagos a técnicos já consolidados. A promoção de um treinador do sub-20 para um elenco de alto nível e com orçamento milionário justificava essa disparidade salarial.
Além disso, é importante destacar que Filipe Luís recebeu propostas de renovação meses atrás, mas decidiu não avançar nas discussões naquele momento. Portanto, o argumento de que o Flamengo "economizou" em 2025 não se sustenta. O clube pagou ao treinador um valor compatível com o estágio de carreira em que ele se encontrava.
Comparações Salariais
Um ponto que gerou bastante debate foi a comparação entre o salário que Filipe Luís está solicitando e o que Abel Ferreira recebe no Palmeiras. Essa comparação, no entanto, não se sustenta. Abel está à frente do Palmeiras desde 2020 e teve a oportunidade de construir seu atual patamar salarial ao longo de cinco anos, período em que conquistou títulos, teve estabilidade e continuidade em seu projeto, além de ter enfrentado momentos de tensão, como uma quase transferência para o futebol árabe.
Colocar Filipe Luís, que possui pouco mais de um ano de trabalho no Flamengo, no mesmo patamar salarial de Abel Ferreira levanta questões importantes. Quanto ele deve ganhar se completar cinco temporadas no clube? E, se o desempenho da equipe cair, como quase ocorreu em uma Libertadores que teve um desfecho preocupante, o salário de Filipe será revisto?
Definir salários apenas com base na última entrega pode resultar em crises contratuais a cada oscilação de desempenho. O valor que deve ser atribuído a Filipe Luís precisa levar em consideração seu excelente trabalho recente, mas também deve ser sustentável, mesmo que o próximo ano não traga a mesma quantidade de títulos conquistados.
Inflacionamento Salarial no Elenco
Outro aspecto que merece atenção é a comparação dos salários de Filipe Luís com os jogadores do elenco, que toca em um ponto sensível: a inflação salarial no Flamengo. Esse problema é um legado de gestões anteriores e já causou descontentamento em diversas renovações, com atletas de pouca relevância utilizando contratos inflacionados como referência.
Esse cenário precisa ser corrigido. A atual diretoria parece disposta a enfrentar essa questão, deixando claro que contratos que não refletem a realidade do clube não serão renovados. Aceitar essa lógica de negociação com o treinador seria ir na contramão do discurso que o próprio clube vem adotando.
A Possibilidade de Outro Técnico
Um argumento comum que circula é de que, se Filipe Luís não renovar, o Flamengo poderá acabar pagando caro por outro treinador, provavelmente estrangeiro, o que revelaria uma incoerência por parte da diretoria. Porém, essa linha de raciocínio é simplista. O valor pago a um treinador não pode ser avaliado de forma isolada, sem considerar as expectativas e cobranças que vêm junto a ele.
Se o Flamengo optar por investir em um técnico mais experiente, estará pagando por alguém que supostamente já esteja pronto, com um histórico comprovado e um currículo consolidado, com a expectativa de que entregue resultados imediatos. Por outro lado, Filipe Luís, apesar de sua competência, ainda é um treinador em formação, tratado pelo próprio clube como um projeto. Pagar a ele como se fosse um técnico já consolidado não é uma valorização, mas um erro de gestão. Existem diferentes patamares, custos e riscos associados.
Considerações Finais
A melhor solução para o Flamengo seria manter Filipe Luís, pois a continuidade com alguém que já conquistou credibilidade e que ainda tem um claro potencial de crescimento pode ser uma estratégia acertada. No entanto, essa renovação deve ser feita de forma prudente, sem pressa, evitando que o clube se torne refém da situação. O contexto de médio e longo prazo deve ser considerado.
É desejável que um acordo seja alcançado e que 2026 seja um ano ainda mais promissor. Contudo, se a renovação não se concretizar, é importante reconhecer a contribuição de Filipe Luís ao clube. Agradecimentos pelo trabalho realizado e votos de sucesso em sua carreira são essenciais, sem qualquer ressentimento.
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Renato Veltri é advogado, colunista do MundoBola e torcedor crítico do Flamengo. Siga-o no Twitter (X).

