Seminário "Valorização da Cultura Negra nos Esportes: Identidade e Desafio"
O Flamengo realizou, na terça-feira (18), o seminário intitulado “Valorização da Cultura Negra nos Esportes: Identidade e Desafio”. O evento ocorreu no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) e contou com a presença de representantes de clubes, atletas e movimentos sociais. O encontro foi uma oportunidade para debater pautas antirracistas e discutir o papel transformador do esporte na sociedade.
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Debate sobre o papel do esporte na sociedade
O seminário teve como foco principal o papel transformador que o esporte pode desempenhar na sociedade. Além das mesas temáticas, o evento destacou a importância da educação antirracista, considerada uma ferramenta essencial nesse contexto. Durante as discussões, foram abordadas políticas institucionais voltadas para o letramento racial e a reparação da humanidade.
O Flamengo aproveitou a ocasião para apresentar algumas de suas ações relacionadas ao tema, incluindo um programa de letramento racial interno que já está em andamento há três anos. Recentemente, o clube atualizou seu Estatuto, incluindo cláusulas que tratam o combate ao racismo como um princípio inegociável, reforçando assim seu compromisso institucional.
Presença dos clubes e construção de uma agenda comum
Representantes de diversos clubes, como Athletico Paranaense, Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo e Vasco, se reuniram para discutir formas de fortalecer políticas antirracistas dentro das instituições esportivas. Camila Nascimento, gerente de Responsabilidade Social do Flamengo, enfatizou a importância da união entre os clubes, independentemente de rivalidades. Ela destacou que a presença coletiva é fundamental para aprofundar o processo antirracista.
Em suas declarações, Camila afirmou: "No combate ao racismo, acho que todos estão unidos. Não se trata de clubismo, se trata de… Racismo é desigualdade, racismo é injustiça, então ninguém pode ser a favor disso." Ela também detalhou o sistema de denúncias do clube em relação à nova cláusula antirracista no Estatuto, ressaltando que, embora haja punições, o foco principal deve ser a educação como uma "arma da luta antirracista".
Camila explicou que existe um canal para denúncias e que a inclusão da cláusula antirracista no Estatuto é um passo significativo, mas o trabalho de educação antirracista é o que realmente faz a diferença. "A ideia é a gente disseminar esse entendimento. A gente entendeu que o Flamengo, com a grandeza do Flamengo, com a história do Flamengo, a gente pode fazer muito na luta antirracista se a gente atuar nesse campo da educação", concluiu.
Formação antirracista: Políticas, educação e disputas narrativas
O terceiro painel do seminário reuniu profissionais da cultura, da educação e de organizações sociais para discutir metodologias de formação e o impacto institucional dessas ações. Vitor Matos, pesquisador e coordenador-geral de Ações Afirmativas na Educação, deu início ao debate ligando a luta antirracista à busca pela humanidade e à reparação.
Ele afirmou: "Ou a gente está falando da construção, ou da reconstrução, ou para usar uma palavra muito usada na discussão antirracista, da reparação de uma coisa que todo mundo deveria ter, que é a humanidade. A gente está falando de direitos humanos, direito de ir e vir." Vitor elogiou o papel dos clubes de futebol como potentes catalisadores de mudança social, afirmando que o esporte possui a capacidade de acelerar o processo de reparação.
Bárbara Azeo, da Secretaria Municipal de Cultura, destacou a arte como uma ferramenta de educação informal, ressaltando que a formação deve abordar o impacto do racismo na saúde e no desempenho dos atletas. "A gente chega ao entendimento de que para fazer esse diálogo acontecer de uma maneira efetiva, a gente precisava falar de desempenho esportivo e impacto do racismo nesses atletas, no grupo, de um modo em geral. E isso está diretamente relacionado com saúde", declarou Bárbara.
Yago Feitosa, mestre em Educação das Relações Étnico-Raciais, complementou a discussão ao compartilhar sua experiência com os jovens do clube. Ele enfatizou que a escuta dos jovens negros contribuiu para a gestão pública. "Eles compreenderam muito rapidamente a ponto de, no final de cada processo, eles apresentarem para a gente maneiras de combater o racismo dentro do segmento deles, dentro da modalidade esportiva deles, porque eles conseguiam identificar", disse Yago.
Atletas Olímpicos do Flamengo: Representatividade e busca por justiça
O painel dedicado à experiência de atletas negros trouxe relatos reais de resistência e superação, revelando desigualdades persistentes na estrutura esportiva. Lorrane Oliveira, medalhista olímpica da ginástica, defendeu a importância da representatividade no esporte. "Desejo que os negros continuem no topo da ginástica conquistando o que merecem", afirmou Lorrane.
O ala-armador Gui Deodato, do FlaBasquete, reforçou a responsabilidade coletiva na luta antirracista. "Que todo mundo busque letramento racial pensando no bem comum", disse Gui. A judoca Giovanna Santos (Gigi) também compartilhou sua visão, destacando a importância de imaginar um futuro sem injustiças. "Eu imagino um futuro em que não exista a injusta preocupação com a cor da pele", declarou Giovanna.
Emenda antirracista no Estatuto do Flamengo
O Flamengo incluiu novos parágrafos em seu Estatuto, tratando a luta antirracista como um princípio norteador das suas ações. A emenda foi aprovada por unanimidade, reforçando o compromisso institucional do clube contra a discriminação racial e de gênero. As alterações agora incluem ações educativas, preventivas e disciplinares, estabelecendo programas e campanhas voltadas para o combate ao racismo.
O combate ao racismo se tornou um objetivo expresso no artigo 2º do Estatuto, que orienta todas as ações do clube. Além disso, o Estatuto proíbe qualquer discriminação com base em raça, sexo, cor, idade, crença ou condição social, conforme o artigo 3º. O Flamengo se compromete a promover ativamente políticas de conscientização, prevenção e inclusão social, e a emenda estabelece punições severas para práticas discriminatórias cometidas por associados, conforme o artigo 51.
As penalidades podem variar entre a suspensão por 365 dias e a exclusão do quadro social. Para empregados e prestadores de serviço, a infração ao artigo 3º resultará em demissão ou rescisão motivada do contrato. Essas medidas serão aplicadas sem prejuízo da responsabilização civil e criminal.