Dia Nacional do Livro no Brasil
Nesta quarta-feira, dia 29 de outubro, o Brasil celebra o Dia Nacional do Livro. No Flamengo, o zagueiro Wallace é conhecido por sua paixão pela literatura. O MundoBola Flamengo teve a oportunidade de conversar com o atleta sobre a importância da leitura e a relação que os livros têm com o ambiente esportivo.
Início da Paixão pela Leitura
Revelado pelo Vitória, o defensor Wallace compartilhou que seu amor pela leitura começou durante os tempos em que atuava nas categorias de base do Flamengo, clube da Bahia. Ele comentou que, apesar das dificuldades enfrentadas na infância, sua mãe sempre o incentivou a dar prioridade aos estudos, o que foi fundamental para desenvolver seu apreço pela literatura.
"Diante disso, eu tive a sorte de ir para um clube que estimulava a literatura e atividades que não eram muito convencionais para o futebol. Havia uma biblioteca lá e muitos jogadores universitários, algo fora do comum no futebol nacional", afirmou o atleta.
Wallace também mencionou que via os atletas mais experientes como exemplos a serem seguidos e, por isso, começou a frequentar a biblioteca do clube. O ex-zagueiro Felipe Saad teve um papel fundamental em sua trajetória literária ao recomendar o livro "O homem que matou Getúlio Vargas", escrito por Jô Soares.
"Ele falou: ‘Cara, como você passa muito tempo ocioso aí, pega esse livro aqui, você vai gostar’. Eu li o livro em dois dias, porque é realmente muito bom. Aquilo me despertou um novo mundo em relação à literatura e comecei a buscar outros autores e outras histórias para que, durante esse tempo de ociosidade, eu pudesse agregar valor à minha pessoa", explicou o defensor do Londrina.
Iniciativa de Incentivo à Leitura
Durante sua passagem pelo Flamengo, Wallace se empenhou em incentivar os jogadores da base do clube a ler. Ele montou uma biblioteca no Ninho do Urubu, onde disponibilizou diversos livros de sua coleção. O objetivo do atleta era agregar valor aos jovens atletas.
"Fiz isso porque, um dia, alguém fez algo semelhante por mim e eu acredito muito na questão da troca. O clube me proporcionou essa condição e o mínimo que eu poderia fazer pela instituição, além do que faço em campo, era também agregar valor a outros atletas. O jogador profissional precisa dar, além do exemplo de campo, outras visões mais amplas, pois muitas vezes ficamos muito restritos", opinou o capitão do Londrina.
Para Wallace, a leitura é um hábito que se desenvolve gradualmente. "Você lê um livro sobre algo que te interessa e, em pouco tempo, começa a dominar o tema e busca outros assuntos", disse. O zagueiro de 37 anos acredita que o ato de ler transforma a percepção do atleta sobre o mundo.
"Quando o atleta tem a consciência de que consegue ler bem, ele adquire um olhar mais crítico e uma melhor compreensão. Não me refiro apenas ao livro que você lê, mas ao que realmente está acontecendo no mundo, até porque o atleta de futebol vive em uma bolha", analisou o jogador.
Lançamento do Primeiro Livro
Em agosto deste ano, Wallace lançou seu primeiro livro, intitulado "Em defesa". Segundo o autor, a obra é simples, com uma linguagem acessível, e aborda a tese de que defender é mais difícil que atacar no futebol. A ideia para o livro surgiu após um debate com o técnico Eduardo Barroca.
"Tivemos algumas discussões sobre qual era mais difícil. Eu sempre defendi que defender é mais complicado, enquanto ele acreditava que atacar é mais desafiador. Ao longo dos anos, fui colocando minhas opiniões baseadas em números e nas minhas experiências práticas", disse Wallace, antes de completar:
"A complexidade de montar uma defesa corretamente e minimizar os erros é algo que sempre existe, pois a defesa sempre terá um erro. Eu trago essa reflexão para mostrar que meu ponto de vista tem muito peso", explicou o jogador.
Aspectos Visíveis e Invisíveis do Jogo
Wallace enfatizou que sua obra busca revelar aspectos do jogo que não são visíveis a olho nu, tanto para a imprensa e torcedores quanto para os próprios jogadores. "Tento mostrar aquilo que não fica claro, o que o jornalista ou o torcedor não consegue ver – às vezes nem o próprio atleta percebe. Muitas vezes, o atleta não tem mais autonomia para pensar e não quer essa autonomia. Ele acaba apenas executando o que lhe é passado, sem refletir sobre o que está fazendo", analisou o ex-jogador do Flamengo.
Reflexões sobre a Literatura
O zagueiro tem como referências diversos escritores, incluindo Machado de Assis, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, George Orwell, Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói. Para Wallace, a literatura representa simultaneamente uma possibilidade de libertação e de escravidão.
"Há um paradoxo. Quanto mais você busca e conhece, mais percebe que não sabe nada. Você vive nessa dualidade de se libertar e se escravizar em busca do conhecimento. Eu gosto disso. Cada livro que leio me liberta de algo, mas me escraviza em outros aspectos", explicou o jogador.
Para o capitão do Londrina, a busca por aprimorar a interpretação e as visões sobre o mundo é um dos atributos desenvolvidos com a literatura, sendo aplicáveis tanto no cotidiano quanto dentro do futebol. No contexto esportivo, Wallace destacou que a obra que mais o impactou foi a biografia do ex-tenista Andre Agassi. O zagueiro, que é apaixonado pela literatura, considera essa obra a mais "visceral e sincera", além de ser aquela que mais "falou diretamente" com ele.
"Acredito que todos os atletas que indiquei essa obra conseguiram perceber o mesmo que eu: a descrição dos sentimentos que envolvem a vida de um atleta nos momentos de altos e baixos, quando você entra em um platô na profissão e a paixão que você tinha vai se tornando um pouco mais escondida. Até que, em algum momento, você redescobre essa paixão pelo esporte que sempre sonhou praticar quando era criança", disse.
A Situação da Leitura no Brasil
De acordo com a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", divulgada pelo Instituto Pró-Livro em novembro de 2024, mais da metade da população brasileira não lê livros. Wallace comparou essa realidade com a da França, onde há um maior apreço pela literatura.
"A França tem um histórico cultural baseado na literatura, enquanto o Brasil não possui essa mesma tradição. Isso acaba se refletindo nos esportes, pois não há como dissociar o atleta da sociedade. Muitas vezes, colocamos escamas nos olhos e não percebemos isso, pois é muito mais fácil taxar um grupo e afirmar que ele é responsável por algo sem considerar o contexto mais amplo", afirmou.
Wallace questionou: "O Maracanã tem capacidade para 60 mil pessoas. Quantas daquelas realmente leem dois livros por ano? Então, apenas o jogador é considerado ignorante? Nossa visão é um pouco míope; precisamos olhar de forma mais ampla, pois isso não é um problema exclusivo do jogador de futebol, mas sim um reflexo da sociedade brasileira em que ele está inserido".
O jogador analisou que existem muitas críticas em relação ao comportamento do jogador brasileiro, especialmente no que diz respeito à falta de posicionamento e à forma de se expressar. No entanto, o zagueiro destacou que a sociedade, de maneira geral, também não apresenta essas características. "É desconexo exigir isso. Mas acredito que temos a possibilidade de mudar", concluiu.
Passagem pelo Flamengo
Entre os anos de 2013 e 2016, Wallace disputou 168 jogos com a camisa do Flamengo, marcando sete gols e contabilizando três assistências. Durante sua trajetória no clube, o defensor conquistou a Copa do Brasil em 2013 e o Campeonato Carioca em 2014.
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